Com quase 300 anos, cidade de Cora Coralina ganha primeira livraria

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Goiás Velho — A quase tricentenária terra natal da mais respeitada escritora goiana ganhou a sua primeira livraria recentemente. No mês que celebra os 130 anos de nascimento de Cora Coralina, a cidade de Goiás comemora o primeiro ano da sua pioneira casa especializada em obras literárias e os mesmos 130 anos daquela que dá nome ao estabelecimento. Leodegária fica no recém-restaurado Mercado Central. O nome exposto na fachada é uma homenagem a outra poetisa da antiga Villa Boa de Goyas.
Negra e 12 dias mais velha que Cora, Leodegária de Jesus faria 130 anos em 8 de agosto. Primeira mulher a publicar um livro em Goiás, Corôa de Lyrios, em 1906, aos 17 anos (Cora só publicaria seu primeiro livro 54 anos depois), Leodegária era professora e intelectual. Ela e Cora se tornaram grandes amigas, mas, apesar do pioneirismo, Leodegária nunca desfrutou do reconhecimento dado à poetisa.
À frente do seu tempo, Leodegária fundou o semanário A Rosa, jornal de poemas feito apenas por mulheres. Em uma das reuniões do Clube Literário Goiano, no Sobrado dos Vieira, casarão que compõe o conjunto arquitetônico tombado pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, Cora escreveu o poema O Passado. Nele, refere-se a si mesma como “gente menor” ao se comparar com a contemporânea Leodegária de Jesus.
Preciosidades
Professoras como Leodegária, as sócias da loja que leva o nome dela decidiram não só homenagear a escritora pioneira como resgatar a boa leitura, com destaque a autoras brasileiras, especialmente de Goiás. O acervo de mais de 700 títulos tem raridades como uma edição fac-similar de Corôa de Lyrios (Editora Cânone) e edições dos livros de Cora Coralina, os mais procurados pelos clientes turistas.
A Leodegária mantém uma extensa programação cultural, que inclui palestras e debates. “O acesso ao livro é restrito na cidade. Sentimos a necessidade de montar uma livraria não só para vender livros, mas também para criar um ponto de encontro para quem ama literatura”, ressalta a professora Goiandira Ortiz de Camargo, sócia de Ebe Maria de Lima Siqueira e Edina Ázara, mineiras criadas em Goiás Velho.
A última loja de livros na cidade fechou na década de 1920. “Mas não era propriamente uma livraria. Era uma gráfica que vendia livros sob encomenda”, explica Goiandira. Até a abertura da Leodegária, o morador de Goiás Velho, onde há três instituições de ensino superior públicas, precisava viajar até Goiânia, a 130km, para adquirir uma obra em uma livraria.

Um neto em Brasília 

Em Semente e Fruto, Cora Coralina escreveu sobre os filhos: “construíram a minha resistência. Filhos, fostes pão e água do meu deserto. Sombra na minha solidão. Refúgio do meu nada. Removi pedras, quebrei as arestas da vida e plantei roseiras”. Do casamento com o advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas, ela teve seis filhos: Cantídio, Ísis, Vicencia, Jacyntha, Eneas, Paraguaçu. A caçula, Vicencia, que mora em São Paulo, tem 92 anos e representa a família e o patrimônio da mãe.
Filho de Jacyntha, Paulo Sérgio Bretas de Almeida Salles, diretor-presidente da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), lembra com carinho e orgulho a avó. “Quando vim para Brasília, comecei a visitá-la com mais frequência. No retorno dela para Goiás, fui o neto com quem mais teve contato”, conta. Paulo, inclusive, morou um tempo na Casa Velha da Ponte, hoje o museu da poetisa. “Foi uma pós-graduação na escola da vida”, define.
No dia a dia, mesmo com tantos anos, é difícil não se lembrar de algum comportamento da poetisa ou alguns dos seus dizeres. “Ela tinha uma visão muito interessante sobre o mundo. Era uma pessoa muito informada. Sem ter rádio, televisão, era só leitura, nos jornais, nos livros, e as conversas que tinha. A casa estava sempre de portas abertas”, relembra. Entre tantas memórias, as conversas de Cora com a lavadeira do Rio Vermelho (que corta Goiás Velho), ou a mulher do governador, ou uma estudiosa, ou um jovem são recorrentes. “Essa comunicação dela com as pessoas me marcou muito”, conta.
Sem ingenuidade, Cora tinha uma visão otimista do mundo e a vivência de quem viu a passagem de um século para o outro com todas as transformações. A avó valorizava o trabalho e o resultado do mesmo. “Para ela, o mundo podia melhorar cada vez mais por meio do trabalho. Ela convidava as pessoas a olharem ao redor e verem que tudo que estava ali era fruto do trabalho de alguém”, detalha Paulo.
O neto reconhece que a avó escrevia, como ela dizia, para gerações que nasceriam. “(Cora) Tinha a percepção de que a mensagem dela ultrapassaria o tempo e seguiria atual. É universal, por isso está tão ligada a fatos presentes. Ela não focava no passado e, sim, nas relações humanas, nos sentimentos. O quintal de sua casa era um universo.”

Trecho

“Voltar a ti, ó terra estremecida, 
E ver de novo, á doce luz da aurora, 
O valle, a selva, a praia inesquecida, 
Onde brincava pequenina outr’ora;
 
Ver uma vez ainda essa querida
Serra Dourada que minh’alma adora;
E o velho rio, o Cantagallo, a ermida,
Eis o que sonho unicamente agora.
 
Depois… morrer fitando o sol no poente,
Morrer ouvindo ao desmaiar fagueiro
De tarde estiva o sabiá dolente.
 
Um leito, emfim, bordado de boninas,
Onde dormisse o somno derradeiro,
Sob essas verdes, placidas collinas.”
Supremo Anhelo, Leodegária de Jesus
Do Correio

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